domingo, 2 de dezembro de 2007

Metáfora última para o último inocente

Não te conheço, avatar da inocência, senão por sonhos e esperanças. Mas nada tem de esperançoso em se fazer presente numa floresta tão cheia de árvore-nenhuma e tão rica em animal-algum. Talvez estejam refletidos em cima de tua cabeça, onde paira uma névoa fina e intransponível de cinismo, intolerância e infidelidade. Certamente há uma planta derradeira no meio de tanto nada e na sua copa esconder-se-á o animal extintor de si mesmo. Tu fazes parte dessa raça, mas não te mistures com essa laia.
Tu, que és o último dos inocentes, deverias saber que teus congêneres já nascem condenados à culpa. São culpados por dar continuidade a uma espécie sem continuação. São culpados por lutarem dentro do corpo de seus pais para conhecerem a luz e, uma vez descoberta, lutam uma vez mais para extirpá-la. São culpados por aprenderem uma única vez - e como aprendem bem! - a se desculparem. O que te fazes tão diferente então? Por que dirijo a ti minha última metáfora? Por que te falo em metáfora? Afinal, quem és tu?
A realidade, amigo, é tão cruel que poderia ser uma poesia. E na verdade a é! O que é mais poético do que rubricar a paz com tinta rubra? O que é mais melódico do que ensurdecer ouvindo os assobios apaixonados de nossas aves metálicas, que, em uníssono, harmonizam o fantástico concerto do desconserto do mundo? O que há de ser mas digno de um bis do que crianças, que fingindo passarem fome, chegam a morrer desempenhando seu papel? Bravo! Bravo! Elas que são bravas...Nós, otimistas. Tu, inocente.
Quem sou? Sou aquele que violará teus olhos castos: torná-los-ei cegos o suficiente para enxergarem o doce amargo de nossas mãos. Assim somos: adoradores de nossos medos, usurpadores de nossos meios, esquecedores de nossos fins. És tu, entretanto, o responsável por nossos pecados, pois não há vilania sem bondade. Essa é a relação mais verdadeira que jamais houve - e talvez a única. Não posso falar-te em piedade, quando não conheces o cruel; não posso ensinar-te o perdão, quando não cumprimentou a culpa; não posso ser tu,quando já fui eu - a virtude é corruptível, mas o pecado não... Uma vez experimentada da maçã, seu sabor jamais será esquecido...
Tu foste forjado na distorção e aqueles que condenam a maçã são os mesmos que te forjam, vil e ignóbil inocência! Tú és cego na tua própria luz. Salve a rainha que te cegou. Creio em Teu Pai, mas não um Tolo Poderoso...
Ensinaram-te a ter preconceito em romper com teus conceitos e falaram-te em prisão quando intentas a liberdade. E podes fazer, e podes falar, e podes sonhar, e podes sangrar, e podes gritar uma, duas, três mil vezes "Liberdade, Liberdade". E hei de dar-te uma bala de hortelã...



O Faxineiro

Um comentário:

Solitude disse...

Esse é um dos melhores textos que já li. E li tantas vezes que não cansei de ler!